Pina Bausch

Nesse panorama de “contaminação” do teatro pela performance é que a encenadora, coreógrafa e bailaria Pina Bausch (1940-2009) irá utilizar o depoimento pessoal como o principal eixo norteador de seus processos de criação na dança-teatro (tanztheater). Trata-se de um estilo artístico que funde movimentos e elementos do cotidiano em suas coreografias. Através da dança, a encenadora alemã constrói uma dramaturgia composta pelas experiências individuais de seus bailarinos, materializadas através de improvisações, selecionadas e editadas pela encenadora-coreógrafa e que resulta numa peça. A dinâmica se dá a partir de um jogo de perguntas e repostas, através do qual a encenadora elabora perguntas elaboradas a partir de temas previamente estabelecidos por ela ou a partir de “pistas temáticas” ainda não consolidadas, que estimulam os bailarinos a reavivarem suas memórias e experiências para responderem cenicamente, por meio de improvisos.  Nestas improvisações, os bailarinos são estimulados constantemente a acessar e redescobrir suas memórias e assumir um posicionamento individual sobre elas. A respeito desta estratégia, CALDEIRA (2009) afirma que “Bausch faz com que seus artistas venham habitar o objeto-tema, observando que todas as perspectivas individuais apresentadas formam um sistema ou um mundo de olhares que perspectivam o referido objeto”. Percebe-se que as perguntas, no processo de criação proposto por Pina Bausch, são estímulos que geram outras perguntas mentais nos bailarinos, que por sua vez se concretizam em ações externas, expressão de suas memórias e experiências, e não a materialização de personagens fictícios. SÁNCHEZ (2010) afirma que “cada um a seu modo cria seu “material”, fazendo-o evoluir da sua própria vivência, aperfeiçoando-o, subvertendo-o. O criador-executante-sujeito trabalha assim apenas sobre si mesmo, passando pelos filtros dispostos pela coreógrafa. Ele deve aprimorar a forma, personaliza-la nas motivação, sob a condição de trazer à cena sua experiência particular”. As perguntas utilizadas por Bausch em seus processos transitam entre diferentes perspectivas. Podem envolver tanto aspectos pessoais, sociais, culturais, políticos etc., porém, a maioria dispara um processo de lembrança, como relata FERNANDES (2007): “muitas das questões de Bausch implicam relembrar: “Como era a sua infância”? ou “Pessoas importantes na sua vida”. Essas improvisações são, então, baseadas nas histórias pessoais dos dançarinos. Muitas das questões – por exemplo “Como era o seu país”? – contextualizam essas lembranças em seus ambientes sociais e culturais. Outras remetem mais diretamente à vida emocional dos dançarinos, também implicando lembrança. Tais questões instigam a memória emocional e sua transformação em linguagem simbólica”. Assim, percebe-se a importância do depoimento pessoal enquanto princípio norteador no processo de criação da dança-teatro de Pina Bausch na medida em que direciona a dinâmica de trabalho proposta, envolvendo o resgate de memórias e sua materialização cênica.

Leia mais: https://abordagem-hipertextual-teatro.webnode.com/hipertexto-didatico-teatro-da-vertigem/o-depoimento-pessoal-no-teatro-da-vertigem/